Duelo entre Argentina e Inglaterra é prova de fogo contra o racismo
Organização que combate racismo no esporte avalia que apoio aos jogadores de diferentes origens étnicas, principalmente negros, varia de acordo com o resultado das partidas.
© Reuters/Sergio Perez/Arquivo/Proibida reprodução {"body":{"site":"agenciabrasil","original_id":"1696738","text":"Duelo entre Argentina e Inglaterra \u00e9 prova de fogo contra o racismo. Principal estrela inglesa, Jude Bellingham \u00e9 alvo de racismo frequente. A sele\u00e7\u00e3o inglesa de futebol entra em campo nesta quarta-feira (15) contra a sele\u00e7\u00e3o da Argentina, \u00e0s 16h, e os olhos do mundo se voltam tanto para o experiente Lionel Messi, da albiceleste, que faz sua \u00faltima Copa do Mundo, quanto para a estrela inglesa, o meio-campo Jude Bellingham.\u00a0 Aos 23 anos, ele superou hostilidades em seu pa\u00eds e se tornou um \u00edcone, cuja torcida lhe homenageia cantando a can\u00e7\u00e3o dos Beatles Hey Jude, uma das mais famosas da banda de rock. Bellingham, um negro, que saiu cedo do pa\u00eds, enfrentou uma onda de cr\u00edticas, ao ser convocado, at\u00e9 se destacar em campo, sendo decisivo na vit\u00f3ria contra o Mexico, marcando dois dos tr\u00eas gols da vit\u00f3ria, no domingo (5), no Est\u00e1dio Asteca.\u00a0 Meio-campista da sele\u00e7\u00e3o da Inglaterra Jude Bellingham - Foto:\u00a0Reuters\/Molly Darlington\/direitos reservados Fora dos gramados, Jude tamb\u00e9m tem se sobressa\u00eddo pela voz firme contra o racismo, direcionado a si e a colegas, tendo, antes da Copa, apoiado outras v\u00edtimas, como o jogador brasileiro Vini Jr., com quem joga lado a lado no campeonato espanhol.\u00a0 Messi, por sua vez, vem sendo questionado por n\u00e3o se posicionar contr\u00e1rio a atos racistas, inclusive, de parte da torcida argentina, registrados duas vezes neste mundial. Uma contra um influenciador negro na arquibancada, IShowSpeed, e outra, contra torcedores eg\u00edpcios. Ao jornal The Guardian, Bellingham confessou que recebe mensagens racistas na maioria dos jogos. A quantidade, contou, varia de acordo com seus resultados em campo.\u00a0 \"N\u00e3o acho que exista uma \u00fanica profiss\u00e3o no mundo em que voc\u00ea merece ser criticado por racismo\", lamentou. \"Mas, sabe, esse \u00e9 o mundo em que vivemos e \u00e9 por isso que precisamos fazer mais. As pessoas no poder precisam fazer mais\", acrescentou. O apoio das torcidas aos jogadores de diferentes origens \u00e9tnicas, principalmente negros, varia de acordo com o resultado das partidas, confirma Marcelo Carvalho, diretor-executivo da organiza\u00e7\u00e3o brasileira Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol.\u00a0 Ele v\u00ea avan\u00e7os no combate ao racismo no futebol ingl\u00eas, que est\u00e1 \"\u00e0 frente dos demais pa\u00edses\" por ter lan\u00e7ado, em 2021, um plano ousado. Por\u00e9m, suspeita do apoio a Bellingham.\u00a0 \"N\u00e3o tor\u00e7o para a Inglaterra perder, mas, se perder, veremos se esse apoio vai continuar\", avalia.\u00a0 \"Isso tamb\u00e9m j\u00e1 aconteceu na Inglaterra, em 2021. Os ataques surgem na derrota\", disse. Ao observar os casos de racismo no mundial, o especialista ressaltou ainda que, pela postura fora de campo, de se posicionar em causas, uma parte do p\u00fablico do futebol tenta colar em Jude a imagem de \"arrogante\", o que acontece com muitos homens negros.\u00a0 \"As pessoas querem ver negros mostrando subordina\u00e7\u00e3o. A partir do momento que voc\u00ea se posiciona e usa a sua voz, voc\u00ea desafia a ordem\", explicou. Jogador Vini Jr. \u00e9 alvo constante de discrimina\u00e7\u00e3o racial - Foto:\u00a0Bruno Peres\/Ag\u00eancia Brasil O racismo \u00e9 um tema que marcou esta edi\u00e7\u00e3o da Copa. Jogadores holandeses, alem\u00e3es e mesmo ingleses, foram alvos de insultos. Grandes nomes, como o franc\u00eas Kyllian Mbapp\u00e9, sofreram insultos diretos, c\u00e2nticos racistas foram entoados por torcidas e ainda houve o veto dos Estados Unidos, pa\u00eds sede da competi\u00e7\u00e3o, \u00e0 entrada no pa\u00eds do \u00e1rbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Longe dos gramados, os n\u00fameros comprovam o cen\u00e1rio. A Fifa identificou e removeu 89 mil publica\u00e7\u00f5es abusivas nas redes sociais durante a fase de grupos, um aumento de 13 vezes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 2022, no Catar.\u00a0 O registro foi feito pelo Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0s Redes Sociais, criado na Copa passada, que analisou 6 milh\u00f5es de publica\u00e7\u00f5es. Os coment\u00e1rios racistas eram 11% do total de mensagens ofensivas, revelou o estudo. Para a organiza\u00e7\u00e3o inglesa Kick it Out, que tamb\u00e9m monitora casos de racismo no esporte, a a\u00e7\u00e3o da Fifa, de monitoramento, \u00e9 importante, mas maior responsabiliza\u00e7\u00e3o gera confian\u00e7a para denunciar. As organiza\u00e7\u00f5es civis cobram \"um esfor\u00e7o coordenado em escala global\", com aux\u00edlio da Fifa, que criou o protocolo Vini Jr., avaliando que o problema requer mais de entidades do futebol, autoridades nacionais e internacionais.\u00a0 Apesar da exist\u00eancia do protocolo claro, na primeira semana da copa um \u00e1rbitro de v\u00eddeo foi alvo de acusa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s um gesto racista conhecido. Ele usou os dedos para fazer um s\u00edmbolo comum entre supremacistas brancos.\u00a0 A Fifa investigou o caso, mas concluiu que o ato n\u00e3o foi intencional. At\u00e9 agora, tampouco a torcida Argentina enfrentou san\u00e7\u00f5es. Premier League lan\u00e7ou um plano para combater o racismo no futebol e na sociedade - Foto:\u00a0Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil Pol\u00edtica antirracista Para a semifinal entre Argentina e Inglaterra, Marcelo Carvalho, diretor-executivo da organiza\u00e7\u00e3o brasileira Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol, espera que, al\u00e9m de destacar jogadores, seja poss\u00edvel dar visibilidade a importantes iniciativas do futebol ingl\u00eas, como a pol\u00edtica antirracista da Premier League, a primeira divis\u00e3o do futebol ingl\u00eas.\u00a0 \"A Inglaterra est\u00e1 um passo \u00e0 frente de todos os pa\u00edses no combate ao racismo no futebol\", afirma Marcelo Carvalho.\u00a0 Desde a derrota na Eurocopa, em 2021, a liga de futebol ingl\u00eas Premier League lan\u00e7ou um plano para combater o racismo no futebol e na sociedade.\u00a0 A liga planejou a\u00e7\u00f5es de m\u00e9dio prazo e trabalha com clubes, torcedores, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade, como a Kick it Out, o sindicato dos jogadores, escolas e a pol\u00edcia, para coibir os ataques. Eles chegaram a identificar autores de ofensas racistas nas redes sociais, cobrando medidas contra os autores. A entidade tamb\u00e9m d\u00e1 treinamento para \u00e1rbitros, incentiva a\u00e7\u00f5es afirmativas nos clubes, principalmente para incluir mulheres e brit\u00e2nicos de origem asi\u00e1tica, al\u00e9m de fazer campanhas nos dias de jogo.\u00a0 Fifa identificou e removeu 89 mil publica\u00e7\u00f5es abusivas nas redes sociais durante a fase de grupos - Foto:\u00a0Reuters\/Arnd Wiegmann\/direitos reservados \"No campeonato ingl\u00eas, vemos mensagens contra o racismo em todos os jogos e tamb\u00e9m contra a LGBTfobia\", disse Carvalho.\u00a0 \"A Inglaterra est\u00e1 \u00e0 frente entre os pa\u00edses e, talvez, por isso, jogadores como Bellingham consigam se posicionar\", afirmou. A liga tamb\u00e9m mant\u00e9m um site para que torcedores relatem casos de discrimina\u00e7\u00e3o que s\u00e3o investigados por especialistas e levados ao Estado ingl\u00eas. \"Temos avan\u00e7ado, mas devemos permanecer determinados a combater a discrimina\u00e7\u00e3o com coragem e consist\u00eancia\", afirma a organiza\u00e7\u00e3o inglesa Kick it Out. ","language_code":"pt-br","voice_name":"pt-br-wavenet-b","ssml_gender":"male","pitch":-5.2,"speaking_rate":1.2},"token":"647968bf66d44802dbd73b27bc78b9f6d5e6d8a8872b9568dbec261b9c288aa0","base_url":"https:\/\/tts-app.ebc.com.br"} Versão em áudio A seleção inglesa de futebol entra em campo nesta quarta-feira (15) contra a seleção da Argentina, às 16h, e os olhos do mundo se voltam tanto para o experiente Lionel Messi, da albiceleste, que faz sua última Copa do Mundo, quanto para a estrela inglesa, o meio-campo Jude Bellingham.
Aos 23 anos, ele superou hostilidades em seu país e se tornou um ícone, cuja torcida lhe homenageia cantando a canção dos Beatles Hey Jude, uma das mais famosas da banda de rock.
Bellingham, um negro, que saiu cedo do país, enfrentou uma onda de críticas, ao ser convocado, até se destacar em campo, sendo decisivo na vitória contra o Mexico, marcando dois dos três gols da vitória, no domingo (5), no Estádio Asteca.
Fora dos gramados, Jude também tem se sobressaído pela voz firme contra o racismo, direcionado a si e a colegas, tendo, antes da Copa, apoiado outras vítimas, como o jogador brasileiro Vini Jr., com quem joga lado a lado no campeonato espanhol.
Messi, por sua vez, vem sendo questionado por não se posicionar contrário a atos racistas, inclusive, de parte da torcida argentina, registrados duas vezes neste mundial. Uma contra um influenciador negro na arquibancada, IShowSpeed, e outra, contra torcedores egípcios.
Ao jornal The Guardian, Bellingham confessou que recebe mensagens racistas na maioria dos jogos. A quantidade, contou, varia de acordo com seus resultados em campo.
"Não acho que exista uma única profissão no mundo em que você merece ser criticado por racismo", lamentou. "Mas, sabe, esse é o mundo em que vivemos e é por isso que precisamos fazer mais. As pessoas no poder precisam fazer mais", acrescentou.
O apoio das torcidas aos jogadores de diferentes origens étnicas, principalmente negros, varia de acordo com o resultado das partidas, confirma Marcelo Carvalho, diretor-executivo da organização brasileira Observatório da Discriminação Racial no Futebol.
Ele vê avanços no combate ao racismo no futebol inglês, que está "à frente dos demais países" por ter lançado, em 2021, um plano ousado. Porém, suspeita do apoio a Bellingham.
"Não torço para a Inglaterra perder, mas, se perder, veremos se esse apoio vai continuar", avalia.
"Temos exemplos nesta Copa de jogadores holandeses, que perderam e foram ofendidos”, lembrou o diretor.
"Isso também já aconteceu na Inglaterra, em 2021. Os ataques surgem na derrota", disse.
Ao observar os casos de racismo no mundial, o especialista ressaltou ainda que, pela postura fora de campo, de se posicionar em causas, uma parte do público do futebol tenta colar em Jude a imagem de "arrogante", o que acontece com muitos homens negros.
"As pessoas querem ver negros mostrando subordinação. A partir do momento que você se posiciona e usa a sua voz, você desafia a ordem", explicou.
O racismo é um tema que marcou esta edição da Copa. Jogadores holandeses, alemães e mesmo ingleses, foram alvos de insultos. Grandes nomes, como o francês Kyllian Mbappé, sofreram insultos diretos, cânticos racistas foram entoados por torcidas e ainda houve o veto dos Estados Unidos, país sede da competição, à entrada no país do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan.
Longe dos gramados, os números comprovam o cenário. A Fifa identificou e removeu 89 mil publicações abusivas nas redes sociais durante a fase de grupos, um aumento de 13 vezes em relação à edição de 2022, no Catar.
O registro foi feito pelo Serviço de Proteção às Redes Sociais, criado na Copa passada, que analisou 6 milhões de publicações. Os comentários racistas eram 11% do total de mensagens ofensivas, revelou o estudo.
Para a organização inglesa Kick it Out, que também monitora casos de racismo no esporte, a ação da Fifa, de monitoramento, é importante, mas maior responsabilização gera confiança para denunciar.
"Temporada após temporada, as pessoas denunciam à Kick it Out número recorde de casos, e é por isso que continuaremos a trabalhar com parceiros para garantir que existam políticas mais eficazes para lidar com esses problemas generalizados", disse a entidade, em um posicionamento público em seu site.
As organizações civis cobram "um esforço coordenado em escala global", com auxílio da Fifa, que criou o protocolo Vini Jr., avaliando que o problema requer mais de entidades do futebol, autoridades nacionais e internacionais.
Apesar da existência do protocolo claro, na primeira semana da copa um árbitro de vídeo foi alvo de acusações após um gesto racista conhecido. Ele usou os dedos para fazer um símbolo comum entre supremacistas brancos.
A Fifa investigou o caso, mas concluiu que o ato não foi intencional. Até agora, tampouco a torcida Argentina enfrentou sanções.
Para a semifinal entre Argentina e Inglaterra, Marcelo Carvalho, diretor-executivo da organização brasileira Observatório da Discriminação Racial no Futebol, espera que, além de destacar jogadores, seja possível dar visibilidade a importantes iniciativas do futebol inglês, como a política antirracista da Premier League, a primeira divisão do futebol inglês.
"A Inglaterra está um passo à frente de todos os países no combate ao racismo no futebol", afirma Marcelo Carvalho.
Desde a derrota na Eurocopa, em 2021, a liga de futebol inglês Premier League lançou um plano para combater o racismo no futebol e na sociedade.
"A mensagem é clara: não há espaço para o racismo. Em lugar nenhum", afirma a entidade, em seu site.
A liga planejou ações de médio prazo e trabalha com clubes, torcedores, organizações da sociedade, como a Kick it Out, o sindicato dos jogadores, escolas e a polícia, para coibir os ataques. Eles chegaram a identificar autores de ofensas racistas nas redes sociais, cobrando medidas contra os autores.
A entidade também dá treinamento para árbitros, incentiva ações afirmativas nos clubes, principalmente para incluir mulheres e britânicos de origem asiática, além de fazer campanhas nos dias de jogo.
"No campeonato inglês, vemos mensagens contra o racismo em todos os jogos e também contra a LGBTfobia", disse Carvalho.
"A Inglaterra está à frente entre os países e, talvez, por isso, jogadores como Bellingham consigam se posicionar", afirmou.
A liga também mantém um site para que torcedores relatem casos de discriminação que são investigados por especialistas e levados ao Estado inglês.
"Temos avançado, mas devemos permanecer determinados a combater a discriminação com coragem e consistência", afirma a organização inglesa Kick it Out.
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